Com publicação científica
Sofrimento no câncer
Pesquisadores propõem novo olhar sobre o sofrimento de pacientes com câncer
Estudo considera o conceito de sofrimento holístico, que compreende a experiência de forma integrada

Dragon Images via Shutterstock
Por Redação SciAdvances
25 de outubro de 2026, 14:45
Fonte
Áreas
Assistência Social, Atenção Primária, Cuidados Paliativos, Enfermagem, Epidemiologia, Medicina, Oncologia, Psicologia
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Sofrimento no câncer
Os desafios da fase de tratamento contra um câncer envolvem, além do próprio paciente, todo o seu círculo de familiares, amigos e os próprios profissionais do sistema de saúde.
Quando um paciente com câncer diz que está bem, que tem fé e que não quer preocupar a família, pode haver por trás uma condição de sofrimento profundo.
Um dos desafios de compreender o sofrimento de um paciente que tem câncer e buscar os cuidados adequados, paliativos ou não, é considerar o alcance de todas as dimensões do sofrimento, não só o sofrimento físico, mas também o sofrimento emocional, social, espiritual e existencial.
Avanço: pesquisadores analisaram o sofrimento de pacientes com câncer do ponto de vista holístico
Pesquisadores da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG) lideraram um estudo que apresentou um novo olhar sobre o sofrimento de pacientes com câncer.
O conceito central considerado no estudo é o de sofrimento holístico, que compreende a experiência de forma integrada e envolve, de forma indissociável, as dimensões física, emocional, social, espiritual e existencial. Na prática, isso significa que não é possível tratar apenas a dor física de um paciente oncológico e ignorar o medo, a solidão ou a perda de sentido, porque todos esses aspectos se misturam na vivência da doença.
O estudo propõe um modelo interpretativo, segundo o qual o sofrimento é uma trajetória existencial não linear e coexistente com a adaptação. O paciente não passa de um estágio de sofrimento para um estágio de aceitação, mas vive os dois ao mesmo tempo.
O estudo qualitativo foi informado por avaliação quantitativa descritiva: os cientistas ouviram 222 adultos com câncer atendidos por uma organização sem fins lucrativos do sul de Minas Gerais e analisaram suas respostas ao chamado Pictograma do Sofrimento’, instrumento em versão brasileira que avalia oito descritores do sofrimento: desconforto, preocupação, medo, raiva, tristeza, desesperança, dificuldade de aceitação e vazio.
De maneira complementar, 20 participantes concederam entrevistas semiestruturadas de cerca de 20 minutos, gravadas, transcritas e analisadas por análise temática.
O estudo, que também teve a participação de pesquisadores da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), Universidade Federal de Viçosa (UFV) e da Universidade da Malásia, foi publicado na revista científica Palliative and Supportive Care.
Expressões de aceitação, fé e força não devem ser lidas automaticamente como ausência de sofrimento
O estudo revelou que o sofrimento de pacientes com câncer é vivido como uma experiência única. Na escala de 0 a 10, a média do sofrimento (integrado) dos participantes ficou em 4,44, sendo considerada de nível moderado. Os valores mais altos foram de preocupação e desconforto físico, e os mais baixos, de desesperança e raiva.
De acordo com a Dra. Ana Cláudia Mesquita Garcia, professora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGENF) da UNIFAL-MG e primeira autora do estudo, a desigualdade social, o acesso desigual aos cuidados paliativos, a pluralidade espiritual e os laços familiares de base coletivista podem moldar essa experiência de sofrimento no câncer.
Como implicação prática dos resultados do estudo, os pesquisadores alertam que expressões de aceitação, fé e força não devem ser lidas automaticamente como ausência de sofrimento. Os profissionais devem também estar atentos ao que não é dito.
Também são recomendadas avaliação rotineira e longitudinal do sofrimento holístico e a integração do cuidado psicossocial e espiritual às equipes interdisciplinares, além da inclusão da família na comunicação e da capacitação dos profissionais para reconhecer a angústia que pode estar oculta.
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