
Leandro Teixeira Cacau et al., Revista de Saúde Pública
Estimativas mostram discrepâncias entre municípios brasileiros
Fonte
Jean Silva e Tabita Said, Jornal da USP
Publicação Original
Áreas
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Resumo
Pesquisadores da USP utilizaram dados disponíveis do IBGE e um modelo estatístico de predição para estimar valores médios da participação de alimentos ultraprocessados no consumo alimentar da população de cada município brasileiro.
Os resultados podem ter vários recortes: o consumo de ultraprocessados é maior entre indivíduos de áreas urbanas que de áreas rurais, maior nas capitais do que em outros municípios, e também é maior no Distrito Federal e nos Estados do Sul e Sudeste, exceto no Espírito Santo.
No Brasil como um todo, a média de participação calórica de alimentos ultraprocessados é de 20,2%.
Os resultados podem motivar o desenvolvimento de ações, programas e políticas públicas que atuem no sentido de melhorar a qualidade dos alimentos consumidos pela população no Brasil.
Foco do Estudo
Estudo
Um novo estudo de pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) estimou a participação calórica de produtos ultraprocessados no consumo alimentar de cada um dos 5.570 municípios brasileiros.
O Dr. Leandro Teixeira Cacau, pesquisador de pós-doutorado na FSP-USP, é o primeiro autor do artigo, e a Dra. Maria Laura da Costa Louzada, pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP e professora da FSP-USP, é a autora sênior do estudo.
A estimativa da participação de alimentos ultraprocessados na dieta da população de cada município teve base nos dados do Censo Demográfico de 2010 e em 46 mil indivíduos maiores de dez anos participantes da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) de 2017-2018, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Utilizando um modelo estatístico de predição, a pesquisa extrapolou os dados para as cidades sobre as quais não havia informações disponíveis, gerando um mapa detalhado do consumo de ultraprocessados no Brasil.
Para estimativa da média em função das características – como sexo, idade, renda, escolaridade, raça/cor, e localização geográfica – os pesquisadores utilizaram a regressão linear múltipla, método para prever valores com várias variáveis.
“Utilizamos esse modelo estatístico para poder extrapolar os resultados que temos da Pesquisa de Orçamentos Familiares. Depois, avaliamos se essa fórmula que criamos estava certa ou tinha algum erro, utilizando também métodos estatísticos, com resultados positivos”, explicou o Dr. Leandro Cacau.
Nossos principais objetivos eram que esses resultados fossem úteis para a tomada de decisão, especialmente para pensar políticas públicas e realizar ações mais locais. Queremos que os municípios possam utilizar esses resultados para desenvolver estratégias específicas
Resultados
Os resultados consideraram a porcentagem de calorias provenientes de ultraprocessados em relação ao total de calorias consumidas por um indivíduo ou população, e a pesquisa revelou uma grande discrepância entre os Estados do Brasil.
Essa diferença pode ser evidenciada comparando, por exemplo, o município de Aroeira do Itaim, no Piauí, com 6% de participação dos ultraprocessados, e Florianópolis, Santa Catarina, com mais de 30%. Em geral, as médias mais altas foram observadas no Distrito Federal e nos Estados do Sul e Sudeste, exceto no Espírito Santo. Os Estados da região Norte e Nordeste, com exceção da Bahia, apresentaram as participações mais baixas.
A média de consumo de ultraprocessados foi maior em pessoas de áreas urbanas que do rurais, e nas capitais em relação aos demais municípios.
Uma limitação reconhecida do estudo é o fato do censo utilizado ser referente a 2010; para contorná-la, um fator de correção foi aplicado. “Esse fator de correção foi construído com base no consumo preciso de alimentos ultraprocessados medido nas capitais e no Distrito Federal, onde entrevistadores avaliaram diretamente as pessoas. Esse dado foi considerado o nosso referencial”, explicou o Dr. Leandro Cacau.
No Brasil como um todo, a média de participação calórica de alimentos ultraprocessados é de 20,2%. Em comparação com homens, a média das mulheres foi maior, embora diminua com o aumento da idade e aumente conforme nível de escolaridade e renda. Apesar do enfoque na dimensão quantitativa, uma análise qualitativa é necessária para entender o porquê dessas diferenças.
O trabalho destaca evidências de que domicílios de baixa renda e das regiões rurais do País apresentam alto consumo de alimentos in natura ou minimamente processados e ingredientes culinários. No entanto, outro estudo conduzido pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP define que esse consumo é marcado por alimentos básicos, como arroz, açúcar e farinhas.
Enquanto isso, o consumo de outros alimentos saudáveis, como frutas, legumes e verduras, que promoveriam maior diversidade alimentar, é precário. Ou seja, a baixa participação de alimentos ultraprocessados no consumo de calorias não implica, necessariamente, na boa qualidade da alimentação.
“Os resultados do estudo também podem embasar programas municipais de cozinhas solidárias, educação nutricional, políticas de incentivo à agricultura familiar e à compra institucional de hortifrutis, e até debates sobre subsídios ou taxações que tornem os alimentos frescos mais acessíveis e desestimulem o consumo excessivo de ultraprocessados”, destacou a professora Maria Laura Louzada. Outra possibilidade é que os municípios usem esses indicadores para metas objetivas de redução do consumo de ultraprocessados.
As estimativas para cada município estão disponíveis publicamente no Portal de Ciência Aberta OSF.
Os resultados foram publicados na Revista de Saúde Pública.
O consumo excessivo de ultraprocessados está ligado ao aumento de doenças crônicas. Essa pesquisa ajuda a entender onde estão os maiores desafios, porque traz estimativas – município a município – sobre a participação desses produtos na dieta. Mas ainda precisamos avançar: faltam dados mais desagregados por gênero, faixa de renda e etnia, e também indicadores sobre a diversidade e a qualidade nutricional das dietas
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Autores/Pesquisadores Citados
Publicação
Acesse o artigo científico completo (em inglês).
Acesse a revista científica Revista de Saúde Pública (em inglês).
Mais Informações
Acesse as estimativas da participação do consumo de ultraprocessados na dieta para cada município no Portal de Ciência Aberta OSF.
Acesse a notícia original completa na página do Jornal da USP.
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