Com publicação científica

Divulgação, UNSW
Dra. Kelly Clemens (à equerda) e Dra. Isobel Williams em laboratório da UNSW durante a pesquisa
Por Redação SciAdvances
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Os opioides são medicamentos analgésicos potentes que atuam no sistema nervoso para reduzir a dor de moderada a intensa, incluindo medicamentos prescritos – como oxicodona, morfina, codeína, fentanil e metadona – bem como algumas drogas ilícitas.
Embora os opioides possam ser altamente eficazes e, por vezes, clinicamente necessários para controlar a dor, seu uso durante a gravidez pode afetar o bebê em desenvolvimento.
Evidências crescentes sugerem que a exposição pré-natal dos fetos a opioides consumidos pela mãe pode aumentar o risco de problemas de desenvolvimento, comportamento e aprendizagem das crianças em longo prazo.
Um novo estudo pré-clínico com animais desenvolvido na Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW), na Austrália, e publicado na revista científica Translational Psychiatry, mostrou que a suplementação com um composto intestinal pode reparar danos relacionados à exposição a opioide mesmo antes do nascimento.
Os filhotes de ratas que receberam o opioide metadona apresentaram problemas comportamentais e de saúde semelhantes aos observados em bebês expostos a opioides antes do nascimento.
No entanto, os filhotes tratados simultaneamente com butirato de sódio — um composto produzido naturalmente no intestino durante a decomposição de fibras alimentares — apresentaram melhorias significativas. Em alguns testes, o desempenho deles foi equivalente ao de filhotes que nunca haviam sido expostos à metadona.
A Dra. Kelly Clemens, professora da UNSW e autora sênior do estudo, destacou que a pesquisa mostrou ser possível reverter alguns dos efeitos duradouros da exposição a opioides antes do nascimento.
O estudo faz parte de um projeto de pesquisa mais amplo que pretende melhorar as perspectivas de vida de bebês nascidos de mães usuárias de opioides.
Ratas prenhes foram divididas em grupos: um grupo recebeu metadona desde a metade da gestação até o parto e o início da amamentação, simulando a exposição pré-natal a opioides; outro grupo recebeu butirato de sódio isoladamente; e um terceiro grupo recebeu butirato de sódio juntamente com a metadona. As proles foram monitoradas desde o nascimento até a adolescência e a vida adulta.
Segundo os pesquisadores, os filhotes e as mães expostos à metadona apresentaram alterações significativas na microbiota e nos códigos genéticos necessários para produzir butirato. A suplementação com butirato de sódio reverteu algumas dessas alterações.
Durante o crescimento, os filhotes passavam por testes cognitivos, de atenção e de controle de impulsos, projetados para simular os efeitos no aprendizado e no comportamento observados em crianças expostas a opioides no útero.
Os filhotes expostos à metadona apresentaram danos no tecido cerebral, com níveis reduzidos de mielina. Mas os animais tratados concomitantemente com butirato de sódio apresentaram melhorias significativas nos níveis de mielina.
Embora o butirato de sódio não tenha eliminado todos os sinais de ansiedade, a suplementação conseguiu restaurar comportamentos exploratórios ligados ao aprendizado e à curiosidade.
Mas o estudo também levantou uma preocupação: em ratas saudáveis que receberam butirato de sódio mas não receberam metadona, o efeito foi inverso. Neste caso, o butirato causou mais danos do que benefícios, alterando o microbioma intestinal, o sistema imunológico e o comportamento materno.
Apesar da necessidade de mais pesquisas antes da realização de estudos clínicos em humanos, a Dra. Kelly Clemens ressaltou que os resultados abrem portas para o desenvolvimento do primeiro tratamento capaz de prevenir ou reverter os danos decorrentes da exposição a opioides em crianças.
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