Com publicação científica
Exposição pré-natal a opioides
Pesquisa avança na melhoria da saúde de crianças expostas a opioides antes do nascimento
Em estudo pré-clínico com animais, suplementação com butirato de sódio mostrou bons resultados na reversão de danos causados por opioide

Divulgação, UNSW
Dra. Kelly Clemens (à esquerda) e Dra. Isobel Williams em laboratório da UNSW durante a pesquisa
Por Redação SciAdvances
17 de setembro de 2026, 09:59
Fonte
Áreas
Bioquímica, Epidemiologia, Farmacologia, Farmácia Clínica, Farmácia Oncológica, Ginecologia, Medicina, Neonatologia, Obstetrícia, Pediatria, Psicologia, Saúde da Criança, Saúde da Mulher, Toxicologia
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Exposição pré-natal a opioides
Os opioides são medicamentos analgésicos potentes que atuam no sistema nervoso para reduzir a dor de moderada a intensa, incluindo medicamentos prescritos – como oxicodona, morfina, codeína, fentanil e metadona – bem como algumas drogas ilícitas.
Embora os opioides possam ser altamente eficazes e, por vezes, clinicamente necessários para controlar a dor, seu uso durante a gravidez pode afetar o bebê em desenvolvimento.
Evidências crescentes sugerem que a exposição pré-natal dos fetos a opioides consumidos pela mãe pode aumentar o risco de problemas de desenvolvimento, comportamento e aprendizagem das crianças em longo prazo.
Avanço: suplementação com butirato de sódio pode reverter alguns efeitos da exposição pré-natal a opioide
Um novo estudo pré-clínico com animais desenvolvido na Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW), na Austrália, e publicado na revista científica Translational Psychiatry, mostrou que a suplementação com um composto intestinal pode reparar danos relacionados à exposição a opioide mesmo antes do nascimento.
Os filhotes de ratas que receberam o opioide metadona apresentaram problemas comportamentais e de saúde semelhantes aos observados em bebês expostos a opioides antes do nascimento.
No entanto, os filhotes tratados simultaneamente com butirato de sódio — um composto produzido naturalmente no intestino durante a decomposição de fibras alimentares — apresentaram melhorias significativas. Em alguns testes, o desempenho deles foi equivalente ao de filhotes que nunca haviam sido expostos à metadona.
A Dra. Kelly Clemens, professora da UNSW e autora sênior do estudo, destacou que a pesquisa mostrou ser possível reverter alguns dos efeitos duradouros da exposição a opioides antes do nascimento.
O estudo faz parte de um projeto de pesquisa mais amplo que pretende melhorar as perspectivas de vida de bebês nascidos de mães usuárias de opioides.
Bons resultados motivam o prosseguimento dos estudos
Ratas prenhes foram divididas em grupos: um grupo recebeu metadona desde a metade da gestação até o parto e o início da amamentação, simulando a exposição pré-natal a opioides; outro grupo recebeu butirato de sódio isoladamente; e um terceiro grupo recebeu butirato de sódio juntamente com a metadona. As proles foram monitoradas desde o nascimento até a adolescência e a vida adulta.
Segundo os pesquisadores, os filhotes e as mães expostos à metadona apresentaram alterações significativas na microbiota e nos códigos genéticos necessários para produzir butirato. A suplementação com butirato de sódio reverteu algumas dessas alterações.
Durante o crescimento, os filhotes passavam por testes cognitivos, de atenção e de controle de impulsos, projetados para simular os efeitos no aprendizado e no comportamento observados em crianças expostas a opioides no útero.
Os filhotes expostos à metadona apresentaram danos no tecido cerebral, com níveis reduzidos de mielina. Mas os animais tratados concomitantemente com butirato de sódio apresentaram melhorias significativas nos níveis de mielina.
Embora o butirato de sódio não tenha eliminado todos os sinais de ansiedade, a suplementação conseguiu restaurar comportamentos exploratórios ligados ao aprendizado e à curiosidade.
Mas o estudo também levantou uma preocupação: em ratas saudáveis que receberam butirato de sódio mas não receberam metadona, o efeito foi inverso. Neste caso, o butirato causou mais danos do que benefícios, alterando o microbioma intestinal, o sistema imunológico e o comportamento materno.
Apesar da necessidade de mais pesquisas antes da realização de estudos clínicos em humanos, a Dra. Kelly Clemens ressaltou que os resultados abrem portas para o desenvolvimento do primeiro tratamento capaz de prevenir ou reverter os danos decorrentes da exposição a opioides em crianças.
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