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Fernanda Bassette, Agência FAPESP
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Resumo
Com base em 32 amostras de plasma de 30 pacientes, um novo estudo mostrou que é possível identificar mutações relevantes em amostras de sangue de pacientes com Câncer de Pulmão de Células Não Pequenas.
A equipe de pesquisa usou um painel comercial desenhado especificamente para mutações conhecidas no adenocarcinoma e buscou alterações em 11 genes relacionados ao desenvolvimento do tumor.
Um dos achados mais marcantes do estudo ocorreu no grupo de rastreamento: um participante assintomático apresentou uma mutação no gene TP53 seis meses antes do diagnóstico de câncer.
Para os pesquisadores, isso demonstra o potencial da biópsia líquida como ferramenta complementar ao rastreamento de populações de risco, apesar de ainda ser um exame de alto custo.
Foco do Estudo
Por que é importante?
O Câncer de Pulmão de Células Não Pequenas (CPCNP) representa cerca de 85% dos casos de câncer de pulmão, sendo o subtipo mais prevalente.
Dentro dele, há diferentes grupos, como o adenocarcinoma e o carcinoma de células escamosas. O adenocarcinoma, em especial, é marcado pela presença de mutações que se tornaram alvo de terapias específicas, alterando o curso do tratamento nos últimos anos.
Há pouco mais de dez anos, a sobrevida mediana não ultrapassava oito meses. Atualmente, a sobrevida está em torno de dois a três anos se o paciente receber terapias-alvo, podendo chegar a dez anos em alguns casos.
Estudo
A detecção precoce de alterações genéticas no câncer de pulmão por meio de biópsia líquida pode se tornar uma ferramenta importante para acelerar o diagnóstico e orientar o tratamento de pacientes no Brasil.
Um estudo apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e publicado na revista científica Molecular Oncology mostrou que é possível identificar mutações relevantes em amostras de sangue de pacientes com Câncer de Pulmão de Células Não Pequenas (CPCNP) usando um painel multigênico comercial.
A pesquisa foi conduzida no Hospital de Amor e avaliou a presença de DNA tumoral circulante (ctDNA) em diferentes grupos de pacientes, incluindo indivíduos assintomáticos.
Ao todo, os pesquisadores examinaram 32 amostras de plasma de 30 pacientes. A maioria deles não havia recebido nenhum tratamento anteriormente, mas também foram incluídos pacientes previamente tratados e quatro participantes de um programa de rastreamento de câncer de pulmão.
A equipe de pesquisa usou um painel comercial desenhado especificamente para mutações conhecidas no adenocarcinoma e buscou alterações em 11 genes relacionados ao desenvolvimento do tumor. O desempenho da técnica surpreendeu: 65,6% das amostras apresentaram mutações, sendo que essa taxa chegou a 87,5% entre os pacientes que já tinham passado por alguma terapia.
O adenocarcinoma é o subtipo do câncer de pulmão que mais se beneficiou do avanço da genômica e, por isso, ele é o principal alvo do nosso estudo. Genes como EGFR, ALK e KRAS têm o que chamamos de ‘acionabilidade’. Isso significa que, quando identificamos uma alteração dessas no paciente, existe uma droga-alvo capaz de agir diretamente sobre ela
Resultados
As mutações mais frequentes ocorreram nos genes TP53 (40,6%), KRAS (28,1%) e EGFR (12,5%). Embora o TP53 seja o gene mais mutado em diferentes tipos de câncer, ainda não existe uma droga específica para ele. Já as alterações no gene EGFR e uma alteração específica em KRAS (p.G12C) são diretamente acionáveis – no caso de EGFR, com várias opções de medicamentos já aprovados no Brasil. Uma delas, a mutação EGFR p.T790M, ligada à resistência ao tratamento, foi identificada em uma das amostras analisadas.
Um dos achados mais marcantes do estudo ocorreu no grupo de rastreamento: um participante assintomático apresentou uma mutação no gene TP53 seis meses antes do diagnóstico de câncer. Para os pesquisadores, isso demonstra o potencial da biópsia líquida como ferramenta complementar ao rastreamento de populações de risco, especialmente fumantes e ex-fumantes.
A Dra. Letícia Ferro Leal – pesquisadora do Centro de Pesquisa em Oncologia Molecular da Fundação Pio XII (Hospital de Amor), que liderou o estudo em conjunto com o Dr. Rui M. Reis, professor da Escola de Medicina da Universidade do Minho, em Portugal – explicou que, na prática clínica, o grande diferencial da realização da biópsia líquida para câncer de pulmão é o tempo. Enquanto a análise convencional do tumor obtido por biópsia ou cirurgia pode levar semanas entre coleta, processamento da amostra, avaliação em patologia e liberação do laudo, a biópsia líquida permite uma resposta mais rápida.
Além da agilidade e redução do tempo de resposta, o estudo mostrou outra vantagem: o painel utilizado foi capaz de detectar ctDNA mesmo em amostras congeladas, sem a necessidade de tubos especiais ou transporte imediato para laboratórios especializados, como costuma acontecer. Isso amplia a possibilidade de adoção do método em serviços públicos de saúde, que nem sempre dispõem de estrutura complexa para testes moleculares.
Apesar dos resultados promissores, a Dra. Letícia Leal reconhece que a incorporação da biópsia líquida à rotina do sistema público de saúde no Brasil ainda enfrenta barreiras importantes, especialmente econômicas. O teste utilizado no estudo custa cerca de R$ 6 mil por paciente. Embora o valor possa diminuir com o aumento da concorrência entre empresas de sequenciamento genético, essa quantia ainda é elevada para a maior parte da população.
Mesmo com as limitações, a conclusão dos pesquisadores é que a biópsia líquida tem potencial de acelerar diagnósticos, orientar de forma mais precisa o tratamento e antecipar decisões clínicas em pacientes com câncer de pulmão. O estudo reforça que a estratégia é viável, pode ser incorporada à rotina hospitalar no Brasil e tem condições de beneficiar pacientes tanto com tumores iniciais quanto avançados.
O tempo é um fator crucial quando falamos em câncer de pulmão. Quando fazemos a biópsia do tecido, precisamos considerar o tempo que o paciente esperou para conseguir agendar a biópsia ou a cirurgia. Somente após esse período começa a contar o tempo de processamento da amostra e de análise molecular. No melhor dos cenários, esse laudo leva em torno de duas semanas a partir da coleta. Com a biópsia líquida, fazemos a coleta a qualquer momento e o resultado pode sair em dois dias, antecipando o início do tratamento
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Autores/Pesquisadores Citados
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