Com publicação científica

Shutterstock-Pixelsquid
Autoinjetor de adrenalina Epipen
Por Redação SciAdvances
Fonte
Áreas
Compartilhar
A anafilaxia é uma reação alérgica grave, de início rápido e que pode ser fatal. Segundo a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), na infância, os alimentos são a causa mais frequente de anafilaxia: leite, ovos, amendoim, castanhas, trigo, soja, peixes e frutos do mar estão entre os gatilhos mais comuns.
A anafilaxia alimentar fatal é rara, mas pode ser evitada com a administração imediata de epinefrina (nome técnico da adrenalina) por intermédio de um dispositivo autoinjetor, que pode ser manuseado por cuidadores ou mesmo pela própria pessoa. A ação da adrenalina pode evitar a progressão da anafilaxia até o atendimento em um serviço de emergência, evitando uma parada cardíaca.
Segundo a organização Anaphylaxis UK, do Reino Unido, as internações hospitalares por alergias alimentares em crianças aumentaram 600% nas últimas duas décadas. Em 2024, um estudo publicado na revista científica The Lancet Public Healh revelou que as taxas de alergia alimentar dobraram entre 2008 e 2018, com um aumento significativo nos casos infantis.
Pesquisas anteriores sobre mortes por asma e anafilaxia constataram que a maioria dos casos fatais em crianças foi desencadeada por alimentos e ocorreu em casa, em espaços públicos ou em escolas, o que alerta para a necessidade de melhorar o atendimento pré-hospitalar.
Em uma pesquisa apresentada recentemente na Conferência do Royal College of Emergency Medicine, no Reino Unido, cientistas destacaram que atrasos na administração (por cuidadores ou responsáveis ou mesmo autoadministração) de adrenalina quando acontece anafilaxia alimentar em crianças podem levar a desfechos fatais.
Na Conferência, pesquisadores da Universidade de Bristol e do Hospital Infantil de Bristol apresentaram resultados de dois estudos publicados na revista científica Clinical & Experimental Allergy no final de 2025 que examinaram dados do Banco de Dados Nacional de Mortalidade Infantil (NCMD) sobre anafilaxia fatal induzida por alimentos em crianças.
O primeiro estudo examinou os fatores que contribuíram para as mortes trágicas de 19 crianças entre 2019 e 2023 por anafilaxia alimentar, causadas por leite (7 casos), nozes (5 casos) e ovos (um caso), além de 5 casos em que alérgeno não foi identificado. Das 19 crianças, 17 tinham recebido prescrição de dispositivo autoinjetor de adrenalina.
No segundo estudo, a mesma equipe de pesquisa analisou a cronologia dos eventos da anafilaxia alimentar fatal para identificar lições que pudessem aprimorar o manejo hospitalar.
Ambos os estudos identificaram intervenções importantes que podem ajudar a prevenir futuras tragédias.
As principais observações de ambos os estudos foram: i) em 74% dos casos, nenhum autoinjetor de adrenalina foi usado ou apenas uma dose única foi administrada antes da parada cardíaca; ii) em 6 casos, a criança ou seus cuidadores não portavam nenhum dispositivo autoinjetor de adrenalina e, em um caso, não havia uma segunda dose disponível; iii) o tempo médio entre o início dos sintomas e a parada cardíaca foi de apenas 14 minutos nos 12 casos em que havia dados disponíveis; iv) em todos os 19 casos, a criança sofreu uma parada cardíaca antes de chegar ao pronto-socorro.
O segundo estudo, que analisou 17 casos de anafilaxia infantil, revelou que a insuficiência respiratória foi a causa primária do óbito. Essa descoberta é significativa, visto que importantes diretrizes atuais focam na insuficiência cardíaca e circulatória, sugerindo que as crianças que chegam ao hospital podem não receber o tratamento de emergência mais eficaz naquela situação de emergência.
O Dr. Tom Roberts, professor da Escola de Medicina da Universidade de Bristol e coautor dos estudos, explicou que a anafilaxia causada por alergia alimentar é uma emergência com risco de vida que exige adrenalina imediata. O professor também destacou que, embora os dispositivos autoinjetores de adrenalina atuem rapidamente para reverter os sintomas, a pesquisa revelou que, em vários casos, as crianças nem sequer portavam o dispositivo ou não receberam adrenalina suficiente antes da parada cardíaca.
O professor Tom Roberts concluiu que um atraso de apenas alguns minutos na administração de adrenalina, na quantidade necessária, pode ter consequências fatais.
Os pesquisadores destacaram a necessidade de atualização das diretrizes sobre o uso dispositivos autoinjetores de adrenalina e sobre o manejo hospitalar de casos graves de anafilaxia alimentar.
No Brasil, apesar de haver patente de dispositivo autoinjetor de adrenalina, não há produtos disponíveis no mercado nacional.
Em suas publicações, o Portal SciAdvances tem o único objetivo de divulgação científica, tecnológica ou de informações comerciais para disseminar conhecimento. Nenhuma publicação do Portal SciAdvances tem o objetivo de aconselhamento, diagnóstico, tratamento médico ou de substituição de qualquer profissional da área da saúde. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado para a devida orientação, medicação ou tratamento, que seja compatível com suas necessidades específicas.
Publicidade
Autores/Pesquisadores Citados
Publicação
Acesse o resumo do artigo científico (em inglês).
Mais Informações
Acesse também o resumo do segundo artigo publicado na revista Clinical & Experimental Allergy (em inglês).
Publicidade
Outros avanços

Universidade de Roma Sapienza

Imperial College de Londres

