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Estudo avança na compreensão sobre como o El Niño influencia peixes e pesca na costa brasileira
29 de dezembro de 2025, 11:19

Fonte

Paiva Rebouças, Sala de Ciências da UFRN

Publicação Original

Áreas

Ciência Ambiental, Geociências, Geografia, Modelagem Climática, Monitoramento Ambiental, Oceanografia, Pesca, Saúde Ambiental, Segurança Alimentar, Sustentabilidade

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Resumo

Os efeitos do fenômeno El Niño Oscilação Sul (ENOS), que alterna com a La Niña – foram agora rastreados em detalhes no Atlântico por uma revisão científica publicada na revista científica Nature Reviews Earth & Environment.

O estudo mapeou como as correntes atmosféricas desencadeadas pelo El Niño atravessam oceanos e, ao atingir o Atlântico, alteram ventos, chuvas, nutrientes e ecossistemas marinhos.

Assinada por 48 cientistas, a publicação contou com a participação de pesquisadores brasileiros da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade Federal do Rio Grande (FURG).

Os pesquisadores analisaram décadas de dados de satélites, boias oceânicas, modelos matemáticos e registros de pesca para enfrentar uma questão antiga: de que maneira um evento no Pacífico consegue alterar a pesca no Atlântico? A resposta está em duas ‘vias atmosféricas’.

A primeira é a via tropical, que atua por meio da Circulação de Walker ou do aquecimento troposférico. Esse padrão de circulação equatorial no Pacífico faz o ar subir no oeste, quente e chuvoso, e descer no leste, mais frio e seco, formando os ventos alísios que sopram de leste para oeste.

A segunda é a via extratropical, que funciona como um trem de ondas de pressão – chamadas teleconexões – viajando do Pacífico até o Atlântico Sul pelo padrão PSA rumo ao Atlântico Sul e pelo padrão PNA rumo ao Atlântico Norte Tropical. Esses trens invisíveis remodelam os ventos que sopram sobre o oceano e controlam um processo vital, a ressurgência. Isso acontece quando águas profundas e frias, ricas em nutrientes, sobem à superfície para alimentar o plâncton e toda a cadeia pesqueira.

O estudo mostrou que a influência do El Niño não funciona como um simples interruptor, mas como um regulador cheio de detalhes. Na foz do rio Amazonas, o fenômeno reduz a chuva e a chegada de água doce ao mar, o que faz a salinidade aumentar e, de forma inesperada, a transparência também. Com menos turvação na água do rio, a luz do Sol alcança camadas mais profundas e cria o ambiente ideal para o camarão marrom. Esse cenário favorece a migração pós-larval, aumenta as chances de sobrevivência e fortalece o recrutamento da espécie, resultando em maior captura no ano seguinte a um evento de El Niño.

No Rio da Prata, o mesmo El Niño despeja água doce e nutrientes em excesso. A produtividade marinha dispara e espécies como merluza e linguado prosperam, enquanto a corvina enfrenta dificuldades, já que mudanças nos ventos e correntes afastam suas larvas dos berçários essenciais.

Um dos achados centrais do estudo é a chamada ‘não estacionariedade’, conceito que descreve como as relações entre o El Niño e o Atlântico não permanecem fixas, mas se fortalecem em alguns períodos e desaparecem em outros.

A novidade do estudo é sua visão integrada: pela primeira vez, os cientistas conseguiram mapear de forma abrangente como diferentes mecanismos atmosféricos e oceanográficos se articulam para produzir impactos variados, revelando um quadro dinâmico e interconectado das relações entre clima e pesca.

O impacto social dessa instabilidade é profundo, já que milhões de pessoas vivem no litoral do Atlântico tropical e sul, e muitas delas dependem diretamente do que o mar oferece a cada ano.

Neste cenário, prever se a safra será de abundância ou de escassez torna-se um enorme desafio. O artigo alerta que a incerteza sobre a frequência e a intensidade futuras de eventos do fenômeno ENOS expõe essas populações a riscos elevados.

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